quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Assim nasce a arte na comunidade


Jovens de comunidades carentes buscam na arte
uma forma de encontrar novos horizontes

“Vindos de Belo Horizonte, os sensacionais Brother Soul”. Com seu característico sotaque carioca, Fernanda Abreu apresentou o grupo mineiro na gravação de seu DVD, MTV Ao vivo. Mas como a funkeira eternizada pelo hit “Rio 40 graus” descobriu esses seguidores de James Brown?

Fernanda não os descobriu por acaso. Foi assim que a antropóloga Clarice Libânio entrou para essa história. Em 2004, Clarice foi umas das pessoas que criaram o Guia Cultural das Vilas e Favelas, pesquisa que identificou e cadastrou 740 grupos culturais e 7 mil artistas nas 226 favelas de Belo Horizonte. A partir deste Guia que Mestre Tito, líder do grupo Brother Soul, e Clarice começaram uma relação de apadrinhagem.

Fernanda Abreu queria fazer uma homenagem à Black Music em seu novo DVD e encontrou o Guia Cultural. Entrou em contato com o Brother Soul e assim graças ao trabalho de Clarice o simpático Mestre Tito, de 52 anos, realizou seu sonho de dançar no Canecão, mesmo palco que dançou seu ídolo James Brown.


Mestre Tito é o líder do grupo Brother Soul,
que existe há 25 anos

José Tito se diz grato ao guia cultural, pois não apenas ele, mas também sua comunidade e todas as outras que estão no guia foram incluídas na sociedade. E ele recomenda todos os artistas da periferia a “procurar o Guia Cultural, pois ele ajuda e sempre ajudará a todos artistas realmente empenhados que precisam de ajuda pra se lançar na mídia”.

A ONG (Organização Não Governamental) Favela É Isso Aí (FEIA) nasceu exatamente do grupo de pessoas envolvidas com a pesquisa do Guia, e tem como presidente e idealizadora Clarice Libânio. Algumas pessoas que resolveram dar continuidade ao trabalho, que tem como principal objetivo divulgar e incentivar a produção cultural da periferia Belo Horizontina.


Coletânea dos livros do Guia Cultural das Vilas e Favelas

A ONG atende a todas as nove regionais de BH, e dão preferência às comunidades menos amparadas. Na escolha das comunidades o que se analisa é qual delas não foi atendida e o tamanho, pois eles dão preferência para fazer em várias comunidades de menor porte e só trabalhar nas maiores quando tiverem mais verba.

Quando foi questionada sobre as dificuldades de se fundar uma ONG a advogada da instituição, Sheila Cianco, afirmou que a maior dificuldade não é na parte jurídica, “mas alcançar o objetivo na finalidade social e unir as pessoas com um mesmo propósito”. Já as dificuldades para se manter a instituição são principalmente financeiras. A Favela é Isso Aí é mantida totalmente pelas leis de incentivo à cultura federal, estadual e municipal. Mas ocorreram vezes em que não se conseguiu patrocínio o suficiente e por isso muitas vezes a ONG ficou sem funcionar.


Clarice Libânio mostra os pontos onde a ONG atua

Os projetos da FEIA são todos direcionados para o apoio cultural. Existe a agência de noticias, que divulga os artistas e seus shows em sites e outros meios, tem também o projeto de audiovisual, que é mais destinado para vídeos e animação. A presidente da instituição informou que o próximo objetivo é montar um estúdio para atender a demanda dos artistas musicais, e também tentaria dele um meio de conseguir mais renda para sustentar a ONG.


Ruth acredita que o 3º setor não cumpre o papel do Estado

Para a socióloga Ruth Ribeiro, a função do 3° setor (organizações não governamentais sem fins lucrativos) seriam cumprir o papel do 1° setor (Estado) nas áreas que ele não é eficiente. Ruth afirma ainda, que deveriam existir parcerias entre governo e o 3° setor, mas que o certo seria “uma agenda para a educação, saúde e cultura”. Enquanto o governo não desempenha a sua função, as Ong’s são uma maneira de não deixar essa áreas sem auxílio. A socióloga ainda disse que é graças a instituições como estas, que existe alguma chance para as classes baixas.

Matéria por Zé Melgaço
Revisão: Wilton Martins